tristes trópicos | bom jardim, 2017
video installation – 5 projectors, 1 overhead projector, 1 slide projector and sound diffusion. Variable dimensions.Pinacoteca do Estado. Curated by Daniela Bousso. Natal, RN, Brazil. Solo show.Tristes Trópicos_Bom Jardim brings together several videos — Frestas, Chico Antônio, and Ruínas Urbanas — along with the sound piece Quanto Coco se dança. Exploring the expansion of the image throughout the exhibition space, as well as the textures of projection surfaces, the video installation originated from a historical ruin: the farmhouse of the Bom Jardim estate where Mário de Andrade stayed during his second trip to the Northeast of Brazil (1929). On that occasion, the poet collected popular musical documents and encountered the art of Chico Antônio, a coco singer from Rio Grande do Norte. The singer’s vitality and creative freedom deeply impressed Mário de Andrade, who considered featuring him as one of the main characters in the novel Café. Although this project never came to fruition, the writer published weekly accounts of this encounter under the title “Vida do cantador” in the “Mundo Musical” column of Folha da Manhã (São Paulo, 1943).
The manor house of the estate dates back to the 19th century and was built by Colonel Bento de Araújo Lima (around 1850). Mário de Andrade stayed there at the invitation of the journalist and art critic Antônio Bento de Araújo Lima (1902–1988), the colonel’s grandson. In his book Turista Aprendiz, the writer recounts how he met the coco singer Chico Antônio (1904–1993), who worked as a farmer on the property of Antônio Bento’s family.
The house that hosted Mário de Andrade, located next to the manor house, is currently in an advanced state of deterioration. It is one among many historical buildings decaying in the region. Added to these are countless urban structures in Natal that silently deteriorate and disappear, leaving behind as an index a broader structural problem: the erasure of ways of preserving memory and Brazil’s difficulty in recognizing and critically reckoning with its own historical legacies — especially those linked to colonial violence, social hierarchies, and the official narratives that helped found the idea of the nation.
The video installation proposes a critical revisitation of the modernist imaginary. While modernism sought to “discover” a deep, authentic Brazil, the current ruins indicate that this promise of cultural integration remains incomplete. The abandoned house, the unfinished urban buildings, and the decomposing landscapes make visible a paradox: what was once celebrated as the origin of national identity is simultaneously neglected and forgotten.
In this sense, the work seeks to shift the question of memory toward a decolonial field of reflection. Ruins cease to be mere traces of the past and begin to function as indices of an unresolved historical trauma, linked to the colonial heritage and the forms of social exploitation that cut across the country’s formation. The images and their inscription in space aim to reactivate these layers of time, asking what it means today to look once again at these places.
________________________
Tristes Trópicos_Bom Jardim reúne alguns vídeos — Frestas, Chico Antônio e Ruínas Urbanas — e o espaço sonoro Quanto Coco se dança. Explorando a expansão da imagem pelo espaço expositivo, assim como as texturas das superfîcies de projecão, a videoinstalação surgiu a partir de uma ruína histórica: a casa da fazenda Bom Jardim em que Mário de Andrade se hospedou durante sua segunda viagem ao Nordeste (1929). Na ocasião o poeta coletou documentos musicais populares e conheceu a arte do cantador de côco potiguar Chico Antônio. A vivacidade e a liberdade criadora do cantador marcaram fortemente Mário de Andrade, que pensou em aproveitá-lo como um dos personagens principais do romance Café. Este projeto não se realizou, mas o escritor publicou semanalmente relatos desse encontro, sob o título “Vida do cantador”, no rodapé “Mundo Musical” da Folha da Manhã (SP- 1943).
A casa-grande da fazenda é do século XIX e foi construída pelo Coronel Bento de Araújo Lima (por volta de 1850). Mário de Andrade ficou ali hospedado a convite do jornalista e crítico de arte, Antônio Bento de Araújo Lima (1902-1988), neto do coronel. No livro "Turista Aprendiz" o escritor conta como conheceu o coquista Chico Antônio (1904-1993), que trabalhava como agricultor na propriedade da família de Antônio Bento.
A casa que abrigou Mário de Andrade, situada ao lado da casa-grande, encontra-se atualmente em estado muito avançado de deterioração. É uma entre tantas outras construções históricas que definham na região. A estas somam-se também incontáveis construções urbanas em Natal que se deterioram em silêncio e desaparecem, deixando como índice um problema estrutural mais amplo: o apagamento das formas de preservação da memória e a dificuldade brasileira de reconhecer e elaborar criticamente os próprios legados históricos — especialmente aqueles vinculados às violências coloniais, às hierarquias sociais e às narrativas oficiais que ajudaram a fundar a ideia de nação.
A videoinstalação propõe uma revisitação crítica do imaginário modernista. Enquanto o modernismo buscava “descobrir” o Brasil profundo, as ruínas atuais indicam que essa promessa de integração cultural permanece incompleta. A casa abandonada, as construções urbanas inacabadas e as paisagens em decomposição tornam visível um paradoxo: aquilo que foi celebrado como origem da identidade nacional é, ao mesmo tempo, negligenciado e esquecido.
Nesse sentido, o trabalho busca deslocar a questão da memória para um campo de reflexão decolonial. As ruínas deixam de ser apenas vestígios do passado e passam a funcionar como índices de um trauma histórico ainda não elaborado, ligado à herança colonial e às formas de exploração social que atravessam a formação do país. As imagens e sua inscrição no espaço buscam reativar essas camadas de tempo e perguntam o que significa, hoje, olhar novamente para esses lugares.
________________________《Tristes Trópicos_Bom Jardim》 汇集了若干影像作品——《Frestas》、《Chico Antônio》 与 《Ruínas Urbanas》——以及声音空间 《Quanto Coco se dança》。该影像装置通过对图像在展览空间中的延展以及投影表面质感的探索,源自一处历史遗迹:Mário de Andrade 在第二次前往东北部地区(1929年)期间曾借宿的 Bom Jardim 庄园中的房屋。当时,这位诗人收集了民间音乐文献,并结识了北里奥格兰德州的椰肉说唱艺人 Chico Antônio。这位说唱艺人的鲜活生命力与创作自由给 Mário de Andrade 留下了深刻印象,他曾考虑将其用作小说 《Café》 的主角之一。这一计划虽未实现,但作家每周在 《Folha da Manhã》(圣保罗,1943年)的 "Mundo Musical" 专栏底部,以 《Vida do cantador》 为题,发表了记录这次相遇的连载报道。庄园的主宅建于十九世纪,由 Bento de Araújo Lima 上校(约1850年)建造。Mário de Andrade 应上校之孙、记者兼艺术评论家 Antônio Bento de Araújo Lima(1902-1988)的邀请下榻于此。在 《Turista Aprendiz》 一书中,作家讲述了他是如何结识椰肉说唱艺人 Chico Antônio(1904-1993)的——后者当时在 Antônio Bento 家族的产业上务农。Mário de Andrade 曾居住的房屋紧邻主宅,目前已处于严重破败状态。它是该地区众多日渐凋零的历史建筑之一。此外,Natal 市亦有无数城市建筑在无声中腐朽消失,它们留下的迹象指向一个更广泛的结构性问题:记忆保存方式的抹除,以及巴西在批判性地认识与处理自身历史遗产——尤其是那些与殖民暴力、社会等级制度以及曾帮助奠定民族观念的官方叙事息息相关的遗产——方面的困境。该影像装置提议对现代主义想象进行批判性的重访。现代主义曾试图"发现"深处的巴西,而当今的废墟则表明这一文化融合的承诺仍未完成。被遗弃的房屋、未完工的城市建筑以及正在分解的景观,使一个悖论变得清晰可见:那些曾被颂扬为民族身份起源的事物,同时也被忽视和遗忘。在此意义上,该作品试图将记忆问题转向一个去殖民反思的领域。废墟不再仅仅是过去的痕迹,而是开始作为尚未被消解的历史创伤的指示符号运作,这种创伤与殖民遗产以及贯穿国家形成过程的社会剥削形式密切相关。图像及其在空间中的铭刻,旨在重新激活这些时间层,并追问:今天,再次凝视这些地方意味着什么。